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Pedro Abrunhosa, e o meu avô? 


Pedro Abrunhosa tem todo o direito de recordar a memória do avô de André Ventura e de retirar dessa memória as conclusões políticas que entender, sobretudo numa entrevista como a que concedeu à Antena 1, no programa de Luís Osório, onde voltou a assumir com clareza a sua intervenção cívica e política, mas eu, que sou um admirador absoluto da sua música, da sua escrita e da extraordinária força artística que tem demonstrado ao longo de décadas, não tenho de ser admirador do seu pensamento político, nem tenho de aceitar que uma determinada leitura da História portuguesa se torne mais verdadeira apenas porque é apresentada por alguém cuja obra musical admiro profundamente.

É precisamente por isso que, quando se fala do passado português através da memória familiar, me ocorre outra memória, uma memória que também merece ser colocada dentro da História e que me obriga a olhar para a Primeira República não através da imagem idealizada que tantas vezes dela se construiu, mas através dos homens que receberam as consequências das decisões políticas tomadas pelos que governavam Portugal.

O meu avô chamava-se Albino Oliveira Machado e, quando partiu para a Flandres, ainda era sargento, levando consigo aquilo que milhares de portugueses levaram para a Grande Guerra: não uma teoria política, não uma narrativa histórica e muito menos a possibilidade de escolher em que regime gostariam de viver, mas a obrigação de cumprir ordens e a esperança de regressar à família que tinham deixado em Portugal.

Chegou às trincheiras de La Lys e ali viveu três dias que ficaram gravados na memória familiar como uma experiência de fome, medo e sofrimento que dificilmente conseguimos compreender a mais de um século de distância, porque durante esses três dias, segundo o testemunho transmitido na família, comeu apenas uma lata de ração, enquanto à sua volta se sucediam os bombardeamentos, a lama, os cadáveres, os feridos, as explosões e o terror permanente de uma guerra industrial em que a vida humana podia desaparecer em segundos.

O meu avô sobreviveu àquele inferno, mas levou consigo consequências físicas e psicológicas que permaneceram durante o resto da sua vida, incluindo os efeitos que a família associou à exposição aos gases de combate utilizados na frente ocidental, e aquele sargento que partira para a Flandres acabaria por chegar a coronel, receber a Cruz de Guerra e ser sepultado em Elvas, no talhão dedicado aos heróis da Grande Guerra.

Mas quando recordo o meu avô, não consigo separar a sua história da dos milhares de portugueses que foram com ele para a guerra, porque a tragédia da participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial não pode ser reduzida às decisões diplomáticas, aos discursos parlamentares ou às grandes figuras da República, uma vez que por detrás dessas decisões estavam homens concretos, famílias concretas e vidas concretas, muitas das quais regressaram destruídas, quando regressaram, enquanto outras ficaram para sempre nos campos de batalha.

É aqui que a História começa a ser verdadeiramente incómoda, porque a Primeira República continua muitas vezes a ser apresentada como o momento fundador de uma democracia portuguesa moderna, quando a realidade política do regime estava muito mais distante desse ideal do que a memória republicana posterior gosta de admitir.

Havia, desde logo, uma enorme contradição entre a retórica de emancipação política da República e a realidade do sufrágio, porque a nova ordem republicana proclamava a cidadania e a soberania popular, mas o direito efectivo de participar nas decisões políticas estava longe de abranger toda a população portuguesa, permanecendo excluídos grandes sectores da sociedade, nomeadamente pela combinação de restrições legais, critérios censitários e de capacidade e, posteriormente, pelas limitações impostas pela legislação eleitoral, numa sociedade onde o analfabetismo era ainda extraordinariamente elevado e onde as mulheres continuavam afastadas do direito de voto.

Esta é uma das grandes hipocrisias que não podemos deixar de colocar em cima da mesa quando se pretende apresentar a Primeira República como uma espécie de democracia plena e acabada, porque não basta proclamar que o povo é soberano quando uma parte significativa desse mesmo povo não tem condições legais para participar na escolha dos seus representantes.

A República falava em liberdade, igualdade e cidadania, mas o eleitorado efectivo era uma parcela da população, e essa distância entre a linguagem política e a realidade social é particularmente importante quando hoje se olha para aquele período com os olhos do presente e se projecta sobre os republicanos uma ideia de democracia que simplesmente não correspondia à realidade portuguesa de então.

Não se trata, naturalmente, de negar a importância histórica da implantação da República, nem de negar que muitos dos homens que lutaram pela República acreditassem sinceramente que estavam a construir um Portugal melhor, mas de reconhecer que as boas intenções de alguns não transformam automaticamente o regime que ajudaram a criar numa democracia perfeita, tal como a existência posterior de uma ditadura não transforma automaticamente a Primeira República numa experiência política exemplar.

Entre 1910 e 1926, Portugal teve 45 governos, num período marcado por uma instabilidade política extraordinária, por golpes e conspirações, por violência nas ruas, por conflitos sociais, por perseguições políticas e por uma sucessão de crises que demonstrava a incapacidade do regime para alcançar uma estabilidade duradoura.

E quando digo que é necessário falar dos "podres" da Primeira República, não estou a utilizar uma expressão para provocar quem tem uma visão republicana da História, mas para lembrar que nenhum período histórico pode ser avaliado apenas pelos seus símbolos, pelos seus mártires ou pelas suas grandes proclamações, porque uma sociedade também deve ser julgada pela forma como trata os seus adversários, pela capacidade de garantir segurança aos seus cidadãos, pela estabilidade das suas instituições e pela possibilidade efectiva de participação política.

A Noite Sangrenta de 19 de Outubro de 1921 é talvez um dos exemplos mais perturbadores dessa realidade, porque António Granjo, Machado Santos e Carlos da Maia foram assassinados num contexto de violência política que mostra até que ponto a República tinha chegado a um estado de degradação interna, sendo particularmente significativo que Machado Santos, um dos grandes protagonistas da implantação republicana e herói do 5 de Outubro, acabasse assassinado por outros republicanos.

E depois existe Sidónio Pais, assassinado em Lisboa em Dezembro de 1918 por José Júlio da Costa, num país profundamente traumatizado pela guerra e atravessado por uma violência política que já não era episódica, mas fazia parte da própria realidade nacional.

A morte de Sidónio Pais é especialmente significativa porque demonstra como a violência que se tinha instalado na sociedade portuguesa acabou por atingir o próprio centro do poder, num período em que o país regressava da Grande Guerra com milhares de homens marcados pela experiência militar e com famílias que tinham suportado anos de dificuldades, enquanto o regime republicano continuava incapaz de encontrar uma solução política estável.

E é aqui que volto ao meu avô, não para transformar a sua memória numa arma contra a República, mas para recordar que as decisões políticas têm sempre pessoas do outro lado.

Enquanto Afonso Costa e outros dirigentes discutiam o papel de Portugal na Grande Guerra, havia homens como Albino Oliveira Machado a atravessar a Europa para combater na Flandres; enquanto se discutia o prestígio internacional da República, havia soldados portugueses que enfrentavam fome e bombardeamentos; enquanto os dirigentes políticos construíam a narrativa nacional sobre a participação portuguesa no conflito, milhares de famílias portuguesas esperavam notícias dos homens que tinham partido.

É muito fácil, cem anos depois, falar da guerra em termos de estratégia, diplomacia e política internacional, mas é muito mais difícil olhar para a fotografia humana dessa guerra e perguntar o que aconteceu aos homens que regressaram, às famílias que ficaram sem os seus maridos e pais, aos soldados que trouxeram para casa doenças e traumas e aos que simplesmente não regressaram.

É nessa dimensão que a memória do meu avô deixa de ser apenas uma memória familiar e passa a ser uma pequena janela para uma tragédia portuguesa muito maior.

E essa tragédia não terminou com o armistício.

A Primeira República continuou mergulhada em conflitos, instabilidade e violência, até que o golpe de 28 de Maio de 1926 colocou fim ao regime e abriu caminho à Ditadura Militar e, posteriormente, ao Estado Novo.

Nada disto significa que o Estado Novo deva ser absolvido pelos erros da Primeira República, da mesma forma que os erros do Estado Novo não podem ser utilizados para branquear aquilo que aconteceu entre 1910 e 1926.

A História não é um julgamento em que a culpa de uns absolve os outros.

É precisamente essa lógica simplista que devemos evitar quando discutimos Portugal.

Se condenamos a violência política do Estado Novo, devemos ser capazes de condenar a violência política da Primeira República; se valorizamos as vítimas da repressão salazarista, devemos igualmente reconhecer as vítimas das perseguições, dos conflitos e da instabilidade republicana; se recordamos os homens que sofreram por causa das decisões políticas tomadas durante o Estado Novo, devemos também recordar os portugueses que sofreram por causa das decisões tomadas pelos governos da Primeira República.

Caso contrário, não estamos a fazer História, estamos apenas a escolher memórias que confirmem aquilo em que já acreditávamos.

E eu não quero fazer isso com o meu avô.

Quero recordar aquilo que lhe aconteceu precisamente porque ele não foi um político, não foi um ideólogo e não foi um homem sentado num gabinete a decidir o destino de Portugal, mas um militar que recebeu ordens e acabou nas trincheiras de La Lys, onde passou três dias com uma única lata de ração, sobrevivendo a uma experiência que o marcou para o resto da vida.

Quando regressou, continuou a sua carreira militar, chegou a coronel, recebeu a Cruz de Guerra e acabou sepultado em Elvas, no talhão dedicado aos heróis da Grande Guerra, mas a sua história não pode ser reduzida à medalha, à patente ou ao estatuto de herói, porque antes de ser um nome inscrito na memória militar portuguesa foi um homem que esteve numa trincheira e que conheceu directamente as consequências das decisões tomadas muito longe do campo de batalha.

É por isso que, quando vejo hoje algumas interpretações da Primeira República, sobretudo aquelas que transformam as revoltas republicanas, o 31 de Janeiro, os combates políticos do Porto e os seus protagonistas numa espécie de epopeia democrática sem zonas de sombra, sinto que falta precisamente aquilo que a História deveria fazer melhor: perguntar quem pagou o preço dessas lutas.

As lutas do Porto tiveram importância histórica e não há razão para negar a coragem de quem nelas participou, mas também não podemos esquecer que revoluções, revoltas e confrontos políticos não existem apenas nos livros, porque têm consequências nas casas das pessoas, afectam famílias, interrompem carreiras, provocam prisões, mortes e perseguições e deixam atrás de si uma sociedade muitas vezes mais pobre e dividida do que aquela que existia antes.

Uma família que perdeu o seu principal sustento não viveu uma epopeia revolucionária; viveu uma tragédia.

Uma criança que ficou sem pai não recebeu uma medalha pela causa política que o levou à morte; recebeu uma ausência.

Uma mulher que ficou sem marido não viveu o heroísmo dos discursos; viveu a dificuldade de alimentar os filhos.

É essa parte da História que frequentemente desaparece quando olhamos para o passado apenas através dos seus heróis.

E é também por isso que não aceito que a memória do meu avô seja colocada numa prateleira secundária simplesmente porque a narrativa política dominante sobre determinado período prefere outras memórias.

O meu avô foi para a guerra.

Foi para uma guerra decidida por homens que discutiam o lugar de Portugal no mundo.

Foi para uma guerra onde passou fome.

Foi para uma guerra onde viu morrer homens.

Foi para uma guerra que deixou marcas no seu corpo e na sua memória.

E foi para uma guerra que milhares de outros portugueses também tiveram de suportar.

Não tenho qualquer necessidade de transformar esse sofrimento numa acusação contra todos os republicanos, porque isso seria tão injusto como transformar as vítimas de um regime numa acusação contra todos os cidadãos que viveram nesse regime, mas tenho todo o direito de perguntar se é intelectualmente honesto celebrar determinadas decisões políticas sem recordar o preço humano que essas decisões tiveram.

É por isso que continuo a admirar Pedro Abrunhosa como músico e continuo a discordar dele quando considero que a sua interpretação política da História portuguesa é demasiado selectiva.

A música não exige concordância política.

A admiração artística não exige submissão intelectual.

E a memória familiar não pode exigir que abandonemos a crítica histórica.

O meu avô não precisa que eu transforme a Primeira República num regime demoníaco para que a sua dor tenha importância, da mesma maneira que as vítimas de outros períodos da História portuguesa não precisam que eu apague os sofrimentos de outras gerações para que a sua memória seja respeitada.

O que precisamos é de uma História suficientemente adulta para conseguir olhar para todas essas dores ao mesmo tempo.

Uma História em que o 31 de Janeiro possa ser estudado sem ser transformado numa relíquia política, em que o Porto possa ser homenageado sem que se esqueçam as famílias que sofreram com os conflitos, em que Machado Santos possa ser recordado como herói republicano e simultaneamente se recorde que acabou assassinado por outros republicanos, em que Sidónio Pais possa ser estudado sem que o seu assassinato seja escondido atrás da narrativa dos vencedores e em que os homens da Flandres possam finalmente ser lembrados não apenas como números ou soldados, mas como portugueses que tinham famílias, medos, fome e uma vida para a qual esperavam regressar.

Foi essa a vida que o meu avô deixou para trás quando partiu para a Flandres.

E é por isso que, quando alguém invoca a memória dos avôs para explicar Portugal, eu não consigo deixar de pensar no meu.

Não porque queira substituir uma memória por outra, mas porque acredito que a História só começa verdadeiramente quando percebemos que nenhuma família tem o monopólio do sofrimento, nenhuma ideologia tem o monopólio das vítimas e nenhum regime pode ser julgado apenas pelos seus inimigos.

O meu avô esteve na trincheira enquanto outros estavam nos gabinetes.

É dessa distância entre quem decide e quem paga que também se faz a História de Portugal.

Paulo Freitas do Amaral

Professor, Historiador e Autor

 
 
 

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